
O Miguelito de Ouro de 2009 foi concorrido por 70 filmes. Destes foram 19 dos Estados Unidos; 8.5 da França; 7 do Brasil; 6 do Reino Unido; 3 do México; 3 da Romênia; 2 da Itália; 2 do Japão; 2 da Turquia; 1.5 da Alemanha; 1.5 da Argélia; 1 de cada África do Sul, Argentina, Coréia do Sul, Espanha, Israel, Noruega, Peru, Polônia, Quênia, Rússia, Suécia e Uruguai; e 0.5 de Bélgica, Cazaquistão, Chile, Iraque e Líbano. Ou seja, foram 32.5 das Américas, 28.5 da Europa; 5.5 da Ásia; 3.5 da África; e nenhum da Oceania.
Pela primeira vez o Japão ganha o Miguelito de Ouro. Graças ao filme "A Partida" (Okubirito). O diretor Yojiro Takita foi muito feliz neste filme. Ou muito triste. É, porque o filme é muito triste. Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) tem o sonho de tocar violoncelo profissionalmente. Para tanto se endivida e compra um instrumento, conseguindo emprego em uma orquestra. O pequeno público que comparece às apresentações faz com que a orquestra seja dissolvida. Sem ter como pagar, ele devolve o instrumento e decide morar, com sua esposa Mika (Ryoko Yoshiyuki), em sua cidade natal. Em busca de emprego, ele se candidata a uma vaga bem remunerada sem saber qual será sua função. Após ser contratado, descobre que será assistente de um agente funerário, o que significa que terá que manipular pessoas mortas. De início Daigo tem nojo da situação, mas a aceita devido ao dinheiro. Apesar disto, esconde o novo trabalho da esposa. Aos poucos ele passa a compreender melhor a tarefa de preparar o corpo de uma pessoa morta para que tenha uma despedida digna.
A Coréia do Sul, que já tinha uma Lagartixa de Bronze, conquistada em 2007, ganhou pela primeira vez a Lagartixa de Prata com o filme "Sede de Sangue" (Bak-Jwi). Park Chan-wook, o mesmo diretor de "Oldboy" está de volta. Sang-hyeon (Song Kang-ho) é um padre que se tornou voluntário de um projeto secreto de desenvolvimento de vacinas. Seu intuito é ajudar a salvar vidas, ameaçadas por um vírus mortal. Porém durante o experimento ele é infectado e morre. Quando recebe uma transfusão de sangue de paradeiro desconhecido, ele volta à vida mas se torna um vampiro. Sang-hyeon está agora dividido, entre o desejo carnal por sangue e sua fé, que o impede de matar. Muito bizarro e super
cult.
A Alemanha que foi a produtora do Miguelito de Ouro de 2005, conquistou a Lagartixa de Bronze deste ano, quebrando um jejum de quatro anos sem prêmios. "A Onda" (Die Welle) mereceu. Em uma escola da Alemanha, o professor secundário Rainer Wenger tem dificuldade em explicar para seus alunos como o povo aceitou a disseminação do nazismo. Quando um dos estudantes afirma que hoje em dia seria impossível um regime autoritário dar certo, por conta da educação das pessoas, o mestre decide fazer uma experiência. Rainer cria uma simulação dentro de sala de aula mostrando como o governo conseguiu convencer o povo.Com exercícios de disciplina, os alunos logo passam a aceitar as ordens dadas pelo professor, assim como na época de Hitler. Os estudantes, então, se unem em um movimento que eles intitulam A Onda. A simulação, que deveria acontecer apenas na sala de aula, toma as ruas da cidade, e se torna cada vez mais violenta. Quando Rainer percebe que sua explicação está saindo do controle, ele decide mostrar aos alunos que nada daquilo é real, mas pode ser tarde demais para isto.
O Brasil brigou por Lagartixas. "O Divã" e "Estômago" chegaram até as finais mas acabaram derrotados. O primeiro é a estória da vida de muitas pessoas e sua psicologia; o segundo é a psicologia de um preso tendo que sobreviver na prisão. Outros bons filmes do ano foram "Feliz Natal" e "Os Desafinados". As comédias "Se Eu Fosse Você 2", "Mulher Invisível" são fracas. O documentário "Caroneiros" é interessante devido à pouca verba que o filme tinha mas tampouco faz diferença no mundo cinematográfico. Não foi em 2009 que o Brasil ganhou uma Lagartixa.
Hollywood foi representada com o péssimo "Jogos Mortais 5" e por "O Reino" ("The Kingdom"), que poderia se chamar "Rambo 10". "O Crepúsculo" ("Twilight") é daqueles filmes para menores de 15 anos. "Anjos & Demônios" ("Angels & Demons") é até legal mas é baseado numa fantasia, de um
best-seller. "Elizabeth" não é nada demais. Continuarei fugindo deste time de cinema em 2010.
E foram dos Estados Unidos, para variar, os piores filmes do ano: "Waking Life" não dá para entender. Aliás, desisti no meio. "O Dia da Transa" ("Humpday") é uma bosta. Não é engraçado, não é dramático, não tem sentido, não é ou tem nada. "Desejo e Perigo" ("Se, Jie"), do diretor Ang Lee, foi uma decepção mas vale pelas cenas de sexo. Vicky Cristina Barcelona é outro que apela para o sexo, né Woody Allen? "Onde os Fracos Não Têm Vez" ("No Country for Old Men") é um filme repleto de marketing e muito chato.
A idéia do também americano "Tráfico de Almas" ("Cold Souls") é muito boa. A possibilidade de você se livrar da tua alma ou de trocar de alma é fascinante. Faltou roteiro, direção, estória ao filme. Mas ainda assim o filme pode ser legal.
E teve filme americano bom também: "Ensaio sobre a Cegueira" ("Blindness" - Estados Unidos) conta o que aconteceria com a socidade se todos estivéssemos cegos. A exploração humana continuaria e não haveria união entre os homens. Outros bons filmes americanos do ano foram: "Antes que o Diabo Saiba que você está Morto" ("Before the Devil Knows You're Dead") conta o drama da família destruída por dois filhos que resolvem assaltar a própria mãe; o criativo "O Curioso Caso de Benjamin Button" ("The Curious Case of Benjamin Button") é a estória do bebê que nasce velho e morre jovem; o documentário "The Corporation" (de 2005) conta o podre das grandes corporações; "O Leitor" ("The Reader") conta a estória de uma pessoa que prefere ser punida do que ser conhecida como analfabeta; o documentário "Fixer: o Seqüestro de Ajmal Naqshbandi" ("Fixer: The Taking of Ajmal Naqshbandi") conta os bastidores dos repórteres na guerra; "Gran Torino" que um veterano da Guerra da Coréia vence seus preconceitos e ajuda asiáticos de uma vizinhança; e "Ché"...¡viva la revolución!
Bons documentários do ano foram: o francês "Estado de Emergência" ("Living in Emergency: Stories from Doctors without Borders "); o também francês "Cuba: uma Odisséia Africana" ("Cuba, une Odyssée Africaine"); e o russo "Anna". Mais fraquinhos, porém perigosos de serem feitos, foram o argelino "A China Continua Distante" ("China is still Far"); o queniano "Roleta da Fortuna" (Good Fortune"), o francês "ABC Colômbia" e o franco-belga "Rachel". O canadense "Doutrina de Choque" ("Shock Doctrine") é excelente. Vale a pena ler o livro.
O japonês "Glória ao Cineasta" ("Kantoku Banzai") se perde na estória; o cazaque-alemão "Tulpan" é chatíssimo; e o franco-iraquiano "Quilômetro Zero" ("Kilomètre Zero") é bobo e mentiroso.
Os filmes romenos mantiveram seu alto padrão de qualidade e política com "O Casamento Silencioso" ("Nunta Muta") e "Politist, Adjectiv". "Katalin Varga" é muito bom também mesmo fugindo do tradiconal padrão romeno. O filme se passa na parte húngara do país e esquece completamente a política.
A animação "Valsa com Bashir" ("Waltz with Bashir") já foi digna de um
post aqui. Brigou até o fim pelos prêmios de 2009.
O México está com um cinema de primeiríssima linah: "Rudo e Cursi"; "E sua mãe também sabe" ("Y Tu Mama También") e "Arráncame la Vida" são excelentes. Dramas humanos pela sobrevivência financeira; pelo desejo; pela liberdade.
Eu só vi o italiano "A Vida é Bela" ("La Vita è Bella") este ano. Excelente! Outro italiano muito bom foi "A Física da Água" ("La Fisica dell'Acqua").
Bons filmes com toques políticos foram: "Entre os Muros da Escola" ("Entre les Murs") mostra a relação de brancos e imigrantes na França; o polonês "Katyn" toca numa ferida deixada pelos soviéticos na 2a Guerra Mundial; o sul-africano "Mandela" conta a estória do famoso prisioneiro através de um dos guardas; o espanhol "Santiago" mostra a resistência catalão contra o Regime Franquista; o franco-argelino "London River" mostra os preconceitos e a necessidade de união entre brancos e árabes contra o terrorismo; o franco-libanês "Caramelo" ("Sukkar Banat") mostra que mesmo com Israel bombardeando Beirute, a vida no Líbano continuará sendo feliz; o peruano "A Teta Assustada" ("La Teta Asustada") mostra o impacto psicológico nas mentes dos peruanos que sobreviveram aos anos de terrorismo.
Até onde você iria para sobreviver no capitalismo selvagem? "O Banheiro do Papa" ("El Baño del Papa"); "Irina Palm"; e "A Agenda" ("Time Out"), "Três Macacos" ("Üç Maymun") respectivamente de Uruguai, Reino Unido, França e Turquia contam estórias dramáticas de sobrevivência.
"A Vida Começa aos 40" ("Heartbreak Hotel") (Suécia) e "Simplesmente Feliz" ("Happy-Go-Lucky") (Reino Unido) falam sobre a felicidade de viver. Enquanto isso, o peruano "Deuses" ("Gods") mostra que algumas famílias abastadas podem ser muito tristes.
Excelentes filmes apolíticos foram: o norueguês "Aguas Turvas" ("Troubled Water"); o turco "10 pras 11"("11’ e 10 Kala"); e o britânico "Aquário" ("Fish Tank"). Os três concorreram às estatuetas.
Filmes chatos: o britânico Brilho de Uma Paixão ("Bright Star"); e o franco-chileno "A Casa Nucingen" ("Nucingen House); faltou final ao francês "Barba Azul" ("La Barbe Bleue").
O polêmico "Brüno" marcou o ano. Mas "Borat" foi muito melhor sucedido.
O argentino "Ninho Vazio" ("Nido Vacío") mostrou o drama de uma família, cujo casamento está à meia boca e os filhos saem de casa.
Os Filmes Campeões - Miguelitos de Ouro:
2002 – Tio Saddam (Uncle Saddam) – Iraque – Produção: Estados Unidos.
2003 – Central Al Jazeera (Control Room) – Qatar – Produção: Estados Unidos e Qatar.
2004 – A Noiva Síria (The Syrian Bride) – Síria/Palestina Ocupada – Produção: Israel.
2005 – Saratan – Quirgízia – Produção: Alemanha.
2006 – O Caminho para Guantánamo (The Road to Guantanamo) – Afeganistão/Paquistão/EUA/UK – Produção: Reino Unido.
2007 – The Bubbles – Israel/Palestina – Produção: Israel.
2008 – O Advogado do Terror (L'Avocat de la Terreur) – França – Produção: França.
2009 - A Partida (Okuribito) - Japão - Produção: Japão.
Lagartixas de Prata:
2006 – Como Festejei o Fim do Mundo (Cum Mi-am Petrecut Sfarsitul Lumii) – Romênia – Produção: Romênia.
2007 – A Culpa é do Fidel (La Faute à Fidel) – França – Produção: França.
2008 – Persépolis – Irã – Produção: França.
2009 - Sede de Sangue (Bak-Jwi) - Coréia do Sul - Produção: Coréia do Sul.
Lagartixas de Bronze:
2006 – Fora de Jogo (Offside) – Irã – Produção: Irã
2007 – I’m a Cyborg but that’s OK (Saibogujiman Kwenchana) – Coréia do Sul – Produção: Coréia do Sul.
2008 - Meu Irmão é Filho Único (Mio Fratello è Figlio Unico) – Itália – Produção: Itália.
2009 - A Onda (Die Welle) - Alemanha - Produção: Alemanha.